a casa de hóspedes

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há alguns anos atrás, eu li um texto que falava sobre aceitar a realidade. ponto. e que a rejeição “do que é”, é o que gera o sofrimento. meu coração foi logo abraçando mas o intelecto ficou cabreiro.
foi me aparecendo mais e mais material que me levava pra mesma escola. a psicologia budista tibetana ensina a impermanência da vida, tudo-muda-o-tempo-todo. e se nada permanece, então deixa estar que já já muda. mas se a gente não aceita o que ta vivendo e se apega ao acontecimento, a gente força a permanência dele.

o pensamento/oração de são francisco que virou mote do AA, pede pra aceitar as coisas que não podem ser mudadas – re.a.li.da.de; mudar o que pode e principalmente a ter sabedoria pra distinguir os dois.

essa vida é cheinha de dores, independente do nosso desejo, e melhor a gente se responsabilizar de como vai lidar com elas.

enfim, comecei a falar disso porque quando recebi a ligação da minha médica dizendo que a biópsia da aspiração tinha dado positiva, ou seja, eu tinha um cancer, pensei “ta brinbcando né?” claro que fiquei chocada. lembra da propaganda “caspa, eu?”, pois é, câncer eu?
mas tinha tanta coisa acontecendo na minha vida naquelas semanas que eu simplesmente “chamei a Lilia-Pixôta” pra entrar em ação.
Ela, a Lilia-Pixôta era uma produtora (aliás muito competente) que estava aposentada, mas na hora H funcionou perfeitamente.
daí pra frente foi arregaçar as mangas e tomar todas as providências que precisava tomar.
aceitei sem sequer saber que estava aceitando aquela realidade absurda. e entendi, não necessariamente por meio do intelecto, que eu não tinha nenhum controle sobre o câncer, mas que eu ia ser responsável pela busca em me sentir bem, ou pelo menos amenizar as dores inevitáveis.

tem momentos que eu sinto, fortemente, que existe uma ordem no caos. o que muitas vezes parece ser só desordem, aos poucos vai se decifrando (plagiando algum escritor que diz que o caos é uma ordem a ser decifrada).
a maior lição dessa aula chamada câncer, é que a gente não tem controle sobre nadinha de nada. diz outro escritor sábio que o aprendizado só se dar quando existe mudança. pois pronto, mudei, hoje já consigo só querer controlar 89,9% da vida 😀
nesses outros 10.1% sinto que há uma engrenagem funcionando e que se a gente não atrapalhar, a gente consegue sentir alguns segundos de paz. uma benção.

então é isso, raciocínio doido, mas a idéia é que, já que a gente não controla nada mesmo, aceitar o que a vida apresenta é pura sabedoria. mesmo que seja um câncer.

e para ilustrar, um poema de Rumi:

A CASA DE HÓSPEDES

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.

— Rumi (Mestre sufi do sec. XII)

4 comentários em “a casa de hóspedes”

  1. Que lição de vida, Lilia! :)
    Não tem como não admirar a garra de uma guerreira como você!
    Muito orgulho!

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